… Now and then… como nossos pais! Inteligência artificial: o tear das moiras midiáticas?
Documento
Informações
Título
… Now and then… como nossos pais! Inteligência artificial: o tear das moiras midiáticas?
Autor(es)
Heloísa de A. Duarte Valente, Paulo César Baptista
Assunto
Inteligência artificial, direitos de autor,
Área de Concentração
Comunicação e Cultura Midiática
Linha de Pesquisa
Configuração de produtos e processos na cultura midiática
Idioma
PT
Publicado em
O surgimento da esquizofonia trouxe a possibilidade de separar a performance do instante da sua realização, permitindo a repetição ilimitada, ad infinitum. Essa mesma propriedade – a mediatização acústica – passou a vincular indissociavelmente performance, escuta e memória. Marcos temporais musicais e suas formas de existência mediatizada – sígnica, portanto - configuram a paisagem sonora, caracterizando um determinado período histórico de modo marcante e inconfundível. Estabelece-se uma relação direta entre experiência sensorial e emotiva da escuta de música que se desenrola no eixo temporal, estabelecendo periodizações caracterizadas pelo seu som (Delalande, 2020) particular.
Com o surgimento de tecnologias geradas pela inteligência artificial, a natureza da criação muda seu centro de referência, à medida que a música mediatizada não se limita à cópia, imitação, paródia; e tampouco a reconstituição de paisagens sonoras, arranjos, modelos performáticos: ela passa a permitir a inclusão de novas obras feitas a partir de amostragens. Com isto, desencadeia-se um processo de dissociação entre obra e performance jamais concebida; ademais, o embaralhamento de produções musicais, desvinculadas de sua versão original resulta em situações complexas, nos limites do ético ao estético, sobretudo quando a clonagem envolve artistas falecidos. A situação se torna mais delicada quando as tecnologias da inteligência artificial constroem, a partir de redes neurais, semelhanças tais que acabam por confundir o artista (vivo) com sua representação (signo).
Mesmo que em termos de recepção a aceitação seja ampla e irrestrita, o que se verifica é o desenrolar de um processo que extrapola os campos tecnológico e artístico, desembocando para questões de natureza ética (direitos conexos de imagem e voz), etc.), jurídica (o direito de delegar por terceiros, sem autorização) e moral (respeito aos valores defendidos pelo morto, em vida).
Ainda que estes temas mereçam uma análise meticulosa, optamos, porém, por abordar questões semióticas. Cabe indagar: Como caracterizar as formas de sensibilidade de escuta, considerando as sucessivas mutações na performance (real versus engendrado tecnicamente)? Como encarar questões inerentes aos direitos autorais e propriedade intelectual de obras audiovisuais e musicais num contexto de “autoria” manipulada pela intervenção da inteligência artificial? Como o nomadismo dos textos poéticos e culturais se adquirem novas acepções semânticas (às vezes contrárias à versão original)? Quais as consequências que estas novas versões podem gerar, desdobrando-se em novos signos?
A questão suscita muitos debates e ainda estamos longe de ter chegado a um protocolo que estabeleça limites na exploração desses artistas. Para analisar algumas destas questões, selecionamos o videoclipe Now and then, dos Beatles e peça publicitária Volkswagen: 70 anos- Gerações, ambas lançadas em 2023 e com grande repercussão nas redes sociais. Nestes estudos de caso, a participação de artistas mortos (John Lennon e Elis Regina) nos impele a analisar, além dos aspectos acima mencionados, questões relativas à memória midiática e à presença do corpo. Em que medida o signo - o corpo e a voz clonados – podem substituir o corpo e a voz reais? Os signos vivem mais que os artistas?
Evento
XVI Congresso da iASPM América Latina, 2024
Data de Publicação
12/12/2025
Tipo
artigo
Financiamento
CNPq bolsa Pq